Leitura

Ontem resolvi reler um livro de Nelson Rodrigues: A mentira
A intenção era começar a ler antes de dormir
Mas eu não consgui parar
Ainda que fosse apenas a releitura de um texto que, obviamente, já conhecia
Fui sugada pelo texto
Pela trama
E de repente comecei a pensar nesses gênios escritores
Nessa capacidade de criarem um texto que provoca emoção e curiosidade
Nelson Rodrigues foi o gênio das paixões humanas
O tradutor da falta de escrúpulos dissimulada em famílias bem estruturadas
Em homens fortes e dominadores
Mulheres submissas
Personaldiades perversas e pervertidas
Eu gosto!
Gosto desse lado da lua que ninguém aceita possuir
E que no íntimo todo mundo tem
Não que todo ser humano por ter uma veia impulsiva vai praticar um crime
Mas o indivíduo não é 100% razão
As decisões não serão sempre bem pensadas ou acertadas
Fosse assim, os ditos centrados jamais se arrependeriam
E não é bem assim que a coisa acontece
É como uma moeda: cara ou coroa
Depende do dia
Das circunstâncias
Daí a probabilidade é 50%: pode ser pela razão ou pela emoção
E Nelson Rodrigues segue agradecendo...
Vale a pena ler e conhecer!

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Brasil

Meu marido pegou o filme Incrível Hulk pra gente assistir
(daí repeti pela enésima vez que meu lindo irmão João imitava o Hulk quando ele era criança!)
E falou que o filme teve seu começo filmado no Brasil (Favela da Rocinha!)
Não era de se estranhar que se filmasse apenas a favela no Rio e sequer fizessem alguma tomada do Jardim Botânico, Cristo, Leblon...
É sempre assim, se vão filmar alguma coisa das Américas Central e do Sul preparem-se para ver os guetos, bolsões de pobreza, miséria e selva!
Como se só houvesse isso do lado debaixo do Equador!
Só tem índio nessa terra tupiniquim, e não que ser índio seja algo ruim
Só que a analogia pretendida é mostrar que desse lado de cá a civilização ainda não chegou
Seres amontoados disputando seus espaços, mais ou menos como no Estado de Natureza de Hobbes...
Mas não é disso que quero falar, mas sim da cena mais grosseira em relação ao Brasil enquanto Nação, país soberano
Os agentes da força de segurança entraram nessa terra sem lei e promoveram uma invasão armada da Rocinha, com perseguição e tiros, invasão de propriedade privada e tudo o mais
Qual o problema disso se se trata apenas de uma obra de ficção?
Vários problemas... reforça sobretudo a imagem do Brasil como um país subdesenvolvido e frágil como nação soberana... mais ou menos terra de ninguém!
Achei um absurdo porque as práticas realizadas no filme do Hulk são abominadas e impensáveis nos Estados Unidos... e creio nenhum produtor de cinema no mundo teria coragem de filmar alguma invasão dos EUA por uma força de segurança estrangeira e, provavelmente se aventurassem a tal, eles tomariam alguma medida para proibir a veiculação das imagens
Os EUA são soberanos, democracia forte e consolidada, um país onde as leis funcionam... e quando a segurança nacional falha...
Basta lembrar do 11 de setembro, do quanto isso mexeu com os brios do governo americano
E por que os latinos se orgulham de mostrar a suas misérias para o mundo?
Não sei...
Mas penso que talvez isso reforce também o comportamento acomodado coletivo que atinge grande parte da população pobre desse país.
Essa mesma população que se vale da própria miséria para aparecer um pouquinho e que se deixam ser usados por esses programas de TV sensacionalistas
Isso muito me entristece!

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"Tem sempre algo ausente que me atormenta"


Essa frase entrou em minha vida em 1998...
Foi dita pela escultora francesa Camille Claudel a Auguste Rodin, seu mestre e amante
É uma envolvente história
E eu conheci um pouco durante a exposição no MAP naquele ano
Ela foi uma mulher à frente do seu tempo
Seu padrão de comportamento chocou Paris do Século XIX
E ela amou Rodin!
De forma tão intensa que chegou a renunciar a si mesmo...
Rodin a tinha como fonte de inspiração e, apesar de parecer amá-la também, não a assumiu
Camille enlouqueceu...
Foram as esculturas desse período pós-Rodin que eu pude ver
E todas parecem estar vivas
Elas transmitem seus sentimentos
E sofrem...
Têm uma espécie de tristeza no olhar
Algumas traduzem as hipocrisias que a cercavam, sobretudo as maledicências
E outras o sonho, o desejo de ser uma escultora de sucesso...
Camille deu tudo de si a Rodin e com ele perdeu tudo!
Perdeu a paz, o equilíbrio
Enlouqueceu!
Viveu perseguida pela idéia de que Rodin queria prejudicá-la
E no fim...
Quem saberá a verdade?
Rodin fez justiça a Camille dedicando parte do seu museu à escultora
Mas sobre o amor vivido...
Só ficou a dor
E Camille morreu em 1943 num sanatório...
Foi internada em 1913 e em uma das cartas escritas ao seu irmão relatou o sonho de voltar para sua casa e lá ficar...
E ela nunca mais voltou!
Essa história mexe muito comigo
Ontem eu assisti o filme "Camille Claudel" (1988) com Isabelle Adjani e Gèrard Depardieu e aquela história me trouxe as sensações de 1998...
É uma trágica história... mas quem disse que não existe beleza na tragédia!

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Alma inquieta

Eu sou uma pessoa de alma inquieta
Daquelas que precisam todos os dias de um pouco mais
Mais utilidade
Mais atividade
Mais humanidade
Mais conhecimento...
Eu às vezes fico num estado estranho
Meu corpo parece incompatível com meu espírito
Alguma coisa quer ir mais adiante
E outra tenta ficar adstrita à realidade
Talvez por não ter ainda chegado o momento
São os momentos em que eu desejaria ter asas!
Pra ganhar a liberdade de ver o mundo de cima
E não por cima!
Queria ter diversos ângulos de visão
Para privar-me dos julgamentos precipitados
Afinal, tudo tem pelo menos dois lados...
E ver as coisas só pela minha forma de pensar é um tanto egoísta
Já que a verdade...
O que é a verdade?
Nem sei se é possível falar em verdade...
É um conceito relativo que comporta mais de um ponto de conclusão!
A minha verdade já mudou tanto...
As certezas são cada vez menos certas
Porque o mundo muda!
As pessoas mudam...
E eu quero mudar!
Mudar para evoluir
Mudar para tentar, ao menos tentar
Ser uma pessoa melhor!

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Amor, estranho amor!

É uma coisa estranha o amor
Ou melhor, a paixão!
A paixão que cega e que faz crer que o outro é seu
Como uma propriedade
E tem que ser eterna
Permanente
Não há possibilidade do fim
E se houver o fim, há que ser doloroso
Essa dor pode ser pela tortura psicológica
Pela ameaça
Pela violência
Que por vezes faz calar para sempre!
"Se não pode ser minha não será de mais ninguém"
Mata-se por amor
Desde sempre
Assim como já se matou pela honra
E até nesses casos, havia o fim de alguma forma de amar
E quem disse que o ser humano é passível de posse?
Quis Deus serem os homens livres...
E quisera os homens destinarem seus afetos
E perpetuarem esse sentimento
Como forma de não fazer sofrer a quem se quer bem
Mas não é bem assim!
Às vezes a gente calça o sapato e com o tempo percebe que ele anda apertando um pouco
E sapato apertado dói pra cacete!
É hora de tirar e buscar um mais confortável
Estando bem ajustado os pés sustentarão o corpo, de forma agradável e sobretudo saudável
Uma vez li um texto de Carlos Drumond de Andrade sobre a pessoa errada
Lá ele diz que a gente não quer a pessoa certa, aquela que vai te fazer todos os mimos, cumprir todos os horários e exigências
A gente quer mesmo é a pessoa errada, que vai nos devolver a humanidade e nos propoircionar os sentimentos humanos tão precisos numa relação
Aquela coisa boa de odiar por quase um segundo e depois amar incrivelmente mais...
O fato é que a linha que separa a razão da loucura é muito tênue e por vezes somos cegados por emoções intensas que nos impelem à tendência violenta
Daí é preciso muito auto-controle para dominar esse ímpeto...
Drumond, sempre Drumond escreveu:
"O primeiro amor passou
O segundo amor passou
O terceiro amor passou
Mas o coração continua"
E essa talvez seja a mais bela característica humana: saber recomeçar!
Não sei se existe um certo ou um errado quando o amor acaba...
Acredito sim que as diferenças vão se tornando intoleráveis... e quando as escovas de dentes não mais combinam, não adianta trocar de casa, de lugar, renovar a casa... o que não combina mais são os corações... é o fim!
Mas sempre há espaço para outro amor... afinal, o coração permanece ali, ávido por emoções, por bater descompassado, pra fazer o peito apertar à simples lembrança...
Que a Eloá descanse em paz... assim como as infinitas vítimas do "amor que adoeceu"
E que em paz fiquem os familiares e amigos de todos os envolvidos.

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Cada uma!

Outro dia postei um tópico sobre a denúncia envolvendo um médico da Cardiologia do Hospital Universitário de Uberlândia (cobrava pelas consultas e facilitava o acesso aos exames e tratamentos!), depois soube-se que não era um, mas pelo menos três envolovidos...

E precisa ser muito inocente para acreditar que ninguém sabia disso! Claro que pelo menos ouvir dizer a direção já deve ter ouvido (e deveria ter averiguado!), mas as medidas administrativas só foram adotadas após a denúncia feita pelo Fantástico...

Mas não é sobre os médicos que quero falar, mas dos pacientes que se valem desse meio sórdido para alcançarem seus fins.

Fui consultar essa semana e havia uma mulher aguardando para ser atendida, do nada ela puxou conversa e começou dentr eoutras coisas a falar do atendimento da Medicina (que é como chamam o Hospital das Clínicas daqui), do quanto era bom e tal. Eis que ela confessa que o tal médico denunciado era muito bom e que ela mesma já havia cansado de pagar pelas consultas com ele e que era até barato, já que ele ajeitava tudo rapidinho, de exames a cirurgia.

E completou que se tiver alguém lá dentro e tudo facilitado!

Não precisei falar nada, acho que ela leu nos meus olhos a minha repulsa por esse tipo de situação... acho que fiz uma cara de nojo tão ostensiva que ela virou e se concentrou no bordado que fazia e calou-se... menos mal!

Daí eu me lembro de Lei de Gerson... a lei da vantagem a qualquer custo, o jeitinho brasileiro!

À noite enquanto acompanhava o noticiário acerca do fim trágico do sequestro em São Paulo me surpreendo com um e-mail enviado por uma telespectadora ao psiquiatra que esclarecia detalhes da (suposta) personalidade do autor.

Essa senhora se dizia indignada com o grau de surpresa das pessoas pelo fato da menina sequestrada ter iniciado um namoro aos 12 anos de idade com um cara de 19, jé que no final do século XIX e início do século XX as meninas se casavam aos 12,13 anos com homens bem mais velhos e ninguém questionava isso...

Santa ignorância! A criatura deveria ter ficado calada... ela citou o exemplo da vó dela que casou-se aos 12 anos com o avó que tinha 22! Algo normal nisso aí?

Nunca foi... só que o padrão cultural da época não se preocupava com isso, as necessidades e prioridades eram outras e mulheres nem eram vistas como cidadãs (aliás, mulheres só alcançaram o direito ao voto na década de 30!).

Lembrei-me de imediato de uma paciente no Hospital Militar, uma senhora super agradável de quem me lembro sempre com carinho. Ela foi uma dessas vítimas de casamento arranjado, casou-se aos 14 anos e só conheceu o noivo no dia do casamento, não tinha a menor noção de como era a vida conjugal e ela contava que teve sorte, que o marido era uma excelente pessoa, que ela foi muito feliz enquanto esteve casada porque acabou viúva com menos de 30 anos e com sete filhos...

E contou também que uma prima dela casou-se na mesma idade e sofreu horrores, tratada como um objeto ou um bicho qualquer...

Existem casos e casos! E esta senhora que me refiro dizia que isso era de uma ignorância sem fim! Que as meninas de sua época não tiveram tempo ou oportunidade de viverem as suas juventudes, foram obrigadas a constituir família (na maioria das vezes bem numerosas) e silenciarem ante o preconceito e a violência sofrida por parte da família ou maridos...

Os tempos são outros, e não consigo imaginar como uma pessoa ainda ache que isto não tem nada de mais... e não é o caso de moralismos não! É lógica até! Bom senso... uma menina de 12 anos está saindo da infância...

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Infância(?)

Eu nasci no pé de um morro!
Minha rua terminava numa favela
E ali moravam pessoas muito bacanas
Mantíanhamos uma boa relação com a vizinhança
Nós, quando criança, transitávamos pelos becos e cortávamos caminho por lá
Mas de repente aquela paz se foi...
Acabou-se!
Claro que sempre houveram problemas e pessoas de índole duvidosa
Mas as lembranças da minha infância não são feitas de tiros e mortes
Vivi momentos de uma infância feliz ali
Criança não costuma fazer distinção entre as pessoas, são todos parceiros de brincadeiras
E iguais!
Ao menos no jogo do faz de conta!
O fato é que meus pais alternavam de moradia, a cada três anos em média nós mudávamos de casa e de ares
Até que meus pais se separaram e em 2000 retornamos para a "nossa rua"
Eu, Lu e João
E aí a realidade se descortinou de forma cruel à nossa frente
A violência derivada do tráfico invadia nossas vidas com sua frieza e crueldade
E ali presenciávamos aquelas cenas de documentários de TV com a diferença de sermos protagonistas daquele universo
Tiroteios a qualquer hora do dia
Homicídios
Drogas
E todos os problemas sociais que dele pudessem decorrer
Assistimos antigos "parceiros" de brincadeira se envolverem com drogas e muitos morrerem como bichos...
E havia uma menina
Pequena, de uns sete anos
Que um dia, enquanto eu voltava para casa me chamou de mãe e me seguiu até em casa
Pai achava que era manipulada pela mãe para auferir alguma vantagem
Se era, eu nunca vou saber
Mas me afeiçoei àquela menina que me pediu um par de chinelos
E ela andava descalça pelas ruas
E eu me lembro do dia que dei o chinelo
Depois alguns materiais escolares
Ela ía lá em casa e eu arrumava seus cabelos, dava conselhos e dava carinho
Um carinho sincero de quem queria muito deixar plantado algo de bom naquele pequeno coração
Depois nos mudamos de lá e eu nunca mais a vi
Não me lembro mais o seu nome
Mas soube, nessa última visita a BH que a menina está grávida!
Deve ter 12 anos...
No máximo 13!
É uma criança à espera de outra
E que vida terão?
Está viciada em maconha
Quando soube alguma coisa doeu em mim
Por saber que essa história não terminará desse jeito
Muitas outras meninas em todos os cantos desse país estão à espera de seus pequenos filhos
Brincarão de boneca numa triste vida real
Não tiveram a Barbie nem qualquer brinquedo que lhes favorecessem a infância
E também não tiveram pais que lhes dessem o essencial para fazerem diferente
São reprodutoras de um sistema que abandona
De um modelo familiar cruel que não cuida de seus filhos
Que não prima pela educação, pela saúde, pelo diálogo, pelo amor...
Ontem quando soube do sequestro da adolescente de 15 anos em Santo André essas idéias me vieram mais intensamente
O motivo, ao que tudo indica, é passional
Fim de um relacionamento de 3 anos!
Ou seja, era uma menina de 12 anos que namorava um rapaz de 19!
São universos diferentes, ao menos no meu entendimento!
Por mais que haja divulgação pelos meios de comunicação
E que a informação seja maior nos dias atuais
Uma menina de 12 anos é uma criança
Não tem discernimento
Não tem percepção de risco
É uma vida levada pela emoção, os conceitos são relativizados
Sem contar a imaturidade física para essas meninas...
E a infância perdeu-se... para sempre!

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